Miguel Barbosa
Botelho Gomes, para além de Barbosa, que o paizinho de sua mãe era senhor de honrarias. 40 Anos de Portuense. Outros tantos de Portista. Geneticamente conservador. Hoje já só reacionário por humor.
Raramente escreve sobre si, até porque não tem manifestamente interesse algum. Quando se vê sem escapatória procura fazê-lo sem se mostrar. Concede não esconder algum fascínio pelas letras e cantigas do Chico Fininho e seus contemporâneos. Faz gala em exibir pretensa erudição sobre os sketches do RAP e restantes gatos. Afiança ser capaz de citar de memória uma boa dúzia de tiradas do Vasco Santana, Ribeirinho e Cª Lda. Se esta Parte era para ter sido entregue hoje, com a paciência da direção editorial – hoje – é hoje até à meia-noite.
Levou o sonho de pilotar aviões um pouco mais além que os rapazes da sua idade. Uma oportunidade que a Força Área Portuguesa, e bem, não soube aproveitar. Aterrou por fim nos bancos da Faculdade de Engenharia da UP. Despacharam-no, ao fim de 5 anos, com a competente “licença para trabalhar”.
Foi o que fez. Com relativo sucesso chegou a “atender telefones e a fazer contas na máquina”. Por vezes “mandava faxes”. Rumou, com a rapidez possível, às artes da gestão. Equipou-se com um MBA na Porto Business School (à época uma muito menos sexy Escola de Gestão do Porto), passando a integrar no discurso indígena, com assinalável proficiência, o gerúndio de Shakespeare. Ligeiramente parol-ing.
Mais ou menos por essa altura, ganhou a mania de que sabia umas coisas sobre inovação. Fez disso mister e há já quase 15 anos ganha o pão de cada dia como casamenteiro de cientistas e gestores. Por vezes limita-se a alcovitar. Começou pelo sempre emocionante episódio da mala de cartão. Português que deixou seu Portugal foi servente da arte na Alemanha, em casa do Sr. Fraunhofer, o que lhe proporcionou considerável “adiantamento de prestígio”.
Regressado, deixaram-no visitar a suite-C do melhor e mais valente grupo de Maiatos desde o Lidador – nos tempos de reconquista – e participar no audaz fossado sobre a PT. Gosta de pensar que aí se fez homem Sonae. Gorada a investida, e sendo a saudade tamanha, acumula nova dose de prestígio junto dos alemães que entretanto se haviam estabelecido no burgo e não tinham esquecido o servente português.
Foi às sortes e safou-se, mas acaba por prestar serviço militar em regime de voluntariado sob intervenção externa e belicosidade financeira. A recruta fê-la no Gabinete de dois Secretários de Estado com a tutela das áreas da inovação e afins. Já no curso de oficiais esteve administrador na Agência Nacional de Inovação. Apesar d’a tropa lhe ter feito bem, espera ter passado definitivamente à reserva.
Minudências à parte, e embora para si não fosse tão cinzenta a Alemanha, a verdade é que a dificuldade com o idioma local não facilitava aprofundamento de laços com as nativas e impedia compra de amor pelos jornais. Não foi menino. Voltou mas para os braços da magnífica mãe de uma que, dando-lhe outros dois, o realizou como pai de três. Dá-lhe cabo do juízo mas, entre tantas outras coisas tão pequenas e banais, perdoa-o com um sorriso e faz-lhe as melhores favas com chouriço. Não sabe se alguma vez recuperará.