A minha viagem
A Arte é uma maneira eficaz de o fazer, pequenas tentativas de originalidade com empenho, ambição e fé. Eu chamo-me Maria João e como eu, assim e assado, só existo eu.
Eu sou uma mulher portuguesa e sou também uma mulher moçambicana!
É assim que me vejo!
Nasci em Lisboa, vivo na linha do Estoril e vivo em Maputo, sou loucamente apaixonada pelas minhas duas pátrias, não consigo escolher: “ ah esta eu amo mais, é o meu lugar!”. Não, não consigo.
O lugar de onde somos define-nos como gente, a rotina, o quotidiano, os sons que habitam á nossa volta, os cheiros, a paisagem as pessoas com os seus hábitos e a sua energia.
Nós somos energia, não é? De modo que esse círculo de energia que caminha connosco toca outros e influencia tudo e todos.
É estranho para mim que pessoas, como o senhor esgrouviadoamericano, que considera o seu país uma bolha, com o “eu quero , eu posso , eu mando, os outros são prescindíveis”, ah este senhor assusta-me, ele e todas essas pessoas. Todos estamos ligados, todos.
A música que faço reflete tudo o que eu vivo, um dia alguém ou mais que um alguém, me comentou “ah que pena teres nascido aqui, se tivesses nascido na América poderias vir a ser uma mega ultra star!” – “Ooooohhh” pensava eu, consternada, nessas vezes, mas rapidamente me deixei disso, a pena foi substituída por um orgulho tremendo que leva tudo atrás, que bom que pertenço a estas pátrias! Que imensas possibilidades!
Que felicidade e que privilégio! Que magníficos mundos, não são?
Nos últimos anos abri caminho no meu coração para mais uma pátria, o Brasil, meu Brasil brasileiro, "...minha alma canta vejo o Rio de Janeiro , estou morrendo de saudade, la lá lá ri la lá ..." ah Mestre Jobim e eu a cantar a plenos pulmões, fôlego infindável!
Com todos estes músicos maravilhosos que me recebem tão bem, estou em casa, esta é parte da minha nova família, Guinga , André Mehmari, Gilberto Gil, Egberto Gismonti Lenine, João Bosco, Leandro Maia, e o Pavan mais a sua linda Careimi e a Manu Tavares meus agentes no lado de lá do oceano, todos na família que é a língua portuguesa, que nos une, nos encanta, nos identifica.
Preocupa-me a parte pior desta época global, que é sermos menos nós para passarmos a ser uma espécie de sopa resultante de tudo o que ouvimos, vemos absorvemos. Isto fui eu que criei ou terei ouvido?
O maior desafio para mim é misturar toda esta esmagadora influência com a minha aventura interior, manter esta aventura o mais intacta possível.
A Arte é uma maneira eficaz de o fazer, pequenas tentativas de originalidade com empenho, ambição e fé.
Eu chamo-me Maria João e como eu, assim e assado, só existo eu.
Nos últimos anos foram criadas muitas escolas de música, inclusive escolas superiores que fornecem ensino que se traduzirá em licenciaturas e mestrados.
Isto é muito bom e um pouco mau em minha opinião.
Bom porque temos acesso a muito ensinamento, aprender é sempre uma boa coisa, temos a possibilidade de conviver com músicos de todos os instrumentos, inspirações, raças nacionalidades e de tocarmos juntos, uns com os outros e mais estes e mais aqueles e isto é absolutamente essencial para a formação de um músico profissional, inclusive para quem dá as aulas, sou melhor cantora agora, mesmo se fosse muito rica eu escolheria sempre continuar a dar aulas.
Mau porque, com tanta informação que nos chega por todas as maneiras, informação que nos inspira, nos maravilha, acaba por nos moldar, mas torna mais difícil essa nossa aventura interior, o que sou eu realmente, o que é toda esta avalanche que ouvimos, vemos e amamos?
Mas, em minha opinião, esta procura do nosso lugar, da nossa identidade, no meu caso através da música, maravilhosa e caprichosa música, é uma verdadeira e magnifica viagem.
Não escolheria outra!